Em seguida, acompanhamos o episódio "O Assassino Amarelo" (That Yellow Bastard), o mais bem construído, mais pesado emocionalmente e mais interessante como um todo. Nele, John Hartigan (Bruce Willis), um policial prestes a se aposentar, vai atrás de um pedófilo assassino e, pra concluir seu último caso, precisa passar por cima do poderoso Senador Roarke (Powers Boothe). Esse episódio, apesar de ser o segundo apresentado no filme, é o último a mostrar seu desfecho, logo após a cena do tal bordel mencionado anteriormente, onde dança a linda linda linda Jessica Alba.

Durante essa quebra de episódio, vemos "A Cidade Do Pecado" (Sin City - The Hard Goodbye), onde Marv (Mickey Rourke) é um desfigurado troglodita com sérios problemas psicológicos em liberdade condicional (só alegria!) que se apaixona por Goldie (Jaime King), a única mulher que o quis e amanhece morta ao seu lado. Buscando vingar a morte da amada, Marv esbarra em Kevin (Elijah Wood), um silencioso assassino com altas tendências canibais, e no cardeal Roarke (Rutger Hauer). Juntos – e ainda com uma pequena ponta de Frank Miller interpretando um padre – esses personagens protagonizam o episódio mais bizarro, sanguinário e trash do filme.

O último episódio é "A Grande Matança" (The Big Fat Kill), onde o protagonista é Dwight (Clive Owen), um cara que acaba se metendo na morte do policial Jackie Boy (Benício del Toro), junto com Gail (Rosario Dawson) e as outras “damas da noite” de Old Town, uma região de Sin City. É o episódio mais sem expressão de todos – combinando com a atuação do ator principal. Aliás, Brittany Murphy, que interpreta a garçonete Shelley, o parzinho do moço no começo do episódio, é tão sem expressão quanto ele – combinam, os dois. A seqüência se arrasta demais e torna o filme até cansativo, em alguns momentos. A melhor (e ótima) cena é a única do filme dirigida por Quentin Tarantino, o “Diretor Especial Convidado” por Miller, em que Dwight e Jackie Boy discutem no carro – e palmas para Benício del Toro pela atuação.

E essa mãozinha do diretor não é a única ligação do filme com Pulp Fiction.
Sin City tem tudo das novelas policiais americanas, e lembra o clássico de Tarantino pela narrativa entrelaçada que se desenvolve durante um dia e pela violência caricata dos personagens.
A atmosfera do filme se caracteriza pela obscuridade, pela tensão, pelo clima de vídeo-game, com seus quase-heróis que só morrem quando querem, veículos em alta velocidade, perseguições, mulheres seminuas, lindas e fatais, cigarros e mais cigarros, tudo isso narrado pelo personagen principal de cada episódio, bem como naquele quadradinho no alto da página da HQ. Fiel aos quadrinhos também é a representação de um mundo em preto-e-branco, com fortes contrastes de detalhes em cores vivas em algumas cenas. Detalhes que ficam incríveis na fotografia cinzenta do filme.

Inclusive, quanto à fidelidade ao original e a qualidade técnica de
Sin city, não há o que ser questionado. O filme foi inteiramente processado por computador e gravado com câmeras digitais de alta definição. Os únicos elementos reais dentro do estúdio eram os atores, as armas e os carros. Só. Acho meio estranha essa forma de fazer cinema – atores contracenando com nada dentro de uma salinha verde (confira algumas fotos do "behind the scenes" do filme no
site oficial). Mas não dá pra negar a qualidade do resultado: a riqueza de detalhes e o nível dos efeitos especiais são de deixar qualquer um (conhecedor ou não de histórias em quadrinhos) de boca aberta.
Sin City não é uma adaptação dos quadrinhos para o cinema: o filme é o próprio quadrinho em movimento, é como se a tela tivesse se adaptado para receber o HQ – coisa que nunca tinha sido vista antes. Não que isso seja ruim – o filme é um espetáculo visual para qualquer fã dos quadrinhos – mas também não é de todo bom. Acredito que o filme
Sin City peque, em certos momentos, por excesso de fidelidade, por mais inusitado que isso possa parecer. Os quadros não são similares nem inspirados, são passados literalmente para o cinema (quem quiser conferir do que eu estou falando, é só dar uma olhada no site da
Film Rotation, onde está disponível uma ótima seleção de cenas comparadas com as imagens dos quadrinhos – para ver mais, basta clicar nos nomes dos episódios). Fidelidade demais aos quadrinhos acaba levando ao risco de transformar o filme em uma mera cópia movimentada. E aí, entra um outro ponto: a velocidade desse movimento, buscando um ritmo mais forte, acabou ficando acelerada demais. Momentos que os quadrinhos permitem ao leitor se deter alguns segundos para uma melhor observação antes de virar a página, acabam sendo, no cinema, alucinantes demais – e perdem a ênfase em detalhes tão bem recriados pela simples dificuldade de acompanhar.
De qualquer jeito,
Sin City é considerado um marco na forma de retratar os quadrinhos na telona – e faz jus a essa classificação. Ainda que eu tema que os filmes sejam feitos, daqui a alguns anos, todos dentro das salinhas verdes, posso dizer que eu não esperava um tão bem feito. Vale a pena ver.
Quem ainda não assistiu e quer ter uma idéia do filme, separei o Troféu Cena Trash: Marv x Kevin, um lobo e bastante sangue.
http://www.youtube.com/watch?v=RwwzVTZw6Zw