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quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Quase um "Tela Class"

O filme Bebel - a garota propaganda, de 1967, é o primeiro filme do diretor Maurice Capovilla e foi exibido hoje pelo Cineclube Lanterninha Aurélio. O com roteiro é baseado conto Bebel que a Cidade Comeu, de Ignacio de Loyola Brandão.

O filme, um drama, em preto e branco, conta a história de Bebel, jovem suburbana muito bonita que é contratada para ser a garota propaganda de um sabonete. A garota faria qualquer coisa para aparecer na televisão e ser famosa, e, de fato, a campanha faz sucesso, rendendo a ela popularidade e dinheiro. Contudo, no universo da televisão e dos comerciais, há a necessidade de se promover novos rostos, e Bebel é afastada da fama e precisa começar tudo de novo. Como não sonsegue mais trabalho na televisão, acaba por cair num submundo no qual só pode contar com o prórpio corpo para se manter. Se vende para produtores, fotógrafos, mas nada consegue devolver a ela o sonho do estrelato, que fora tão instantâneo. O filme causou polêmica na estréia, por ter várias críticas políticas e até à poluição das cidades (eu achei as críticas meio perdidas em toda a temática do filme, mas naquela época qualquer coisa era válida). Em todo o caso, há uma seqüência em que um deputado atropela uma criança e em seguida pede a imunidade parlamentar para escapar da Justiça - o que causou, na ocasião, revolta no plenário do Congresso, em Brasília. Mas no mais é tudo muuuito sutil. A Bebel não aparece pelada nenhuma vez, só aparece ela indo pra cama de fato com o namoradinho (que era metido com movimentos políticos contra o governo e coisas assim), o resto é tudo muuuuito subentendido. Várias vezes apareciam uns personagens diferentes do nada, e não explicava de onde surgiram ou quem eram. Ah, o som também estava muito alto e as vozes - bem engraçadas, a maioria - eram dubladas, o que deixou o filme, infelizmente, ridículo. A Bebel dava umas risadinhas que "eusulivre"! Forçadas... Assim como algumas das vozes... O que me lembrou muito a última temporada de Hermes e Renato, intitulada Tela Class: a equipe dublava filmes antigos com vozes e diálogos divertidos. Mas, levando em conta a época que o filme foi feito e o contexto, o resultado final é legal.

Cineclubismo: debates e sessões nas quartas-feiras, às 19 horas, no auditório João Miguel de Souza - Centro Cultural Cesma - 3º andar. A entrada é gratuita.

Cineclube Lanterninha Aurélio:
No orkut: http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=197704
Blog: www.cineclubelanterninhaurelio.blogspot.com

sábado, 24 de novembro de 2007

Simplesmente Martha e o fim do Cinema & Fogão

O Cineclube UNIFRA encerrou hoje o ciclo de cinema do mês de novembro. O filme de encerrando foi Simplesmente Martha, da diretora alemã Sandra Nettelbeck, de 2001.

Nada mais conveniente com o tema do ciclo, Cinema & Fogão, também divulgados aqui nas semanas anteriores. A obra de Nettelbeck é uma comédia-dramática de encher os olhos. A personagem principal, interpretada por Martina Gedeck, é uma renomada chef de um famoso restaurante. Apesar de seu êxito profissional, Martha é extremamente perfeccionista e sofre para atender a todos clientes.

Tudo piora ainda mais quando sua irmã morre e deixa uma filha. A menina Lina, que fora criada apenas pela mãe, tem dificuldades de adaptação, e pede para sua tia ir em busca de seu pai, do qual sabe apenas o nome, Giuseppe, e a nacionalidade, italiana.

No meio das dificuldades enfrentadas por Martha em casa e no trabalho e em casa, surge a figura de Mario, um chef italiano muito diferente da personagem principal. Aí que o filme fica mais água-com-açúcar. Apesar de Sergio Castellitto ser um excelente ator, o roteiro acaba caindo em clichês, como na aproximação entre o novo chef e Lina.

Desfeito os desentendimentos entre Martha e Mario, ele ajuda na procura de Giuseppe, que acaba indo para a Alemanha para buscar sua filha. No fim, naturalmente, os chefs acabam casando. Banal e óbvio, mas em certa medida bom para uma comédia leve e despretensiosa. Destaque para a excelente trilha sonora do filme.

Para comemorar o fim do ciclo, o professor Carlos Alberto Badke fez uma pergunta que valia um almoço num restaurante do centro da cidade. Nada mais conveniente para o fim do Ciclo.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Quem foi ao programa de índio III?

O projeto “Antropologia e cinema – ciclo II – o índio no cinema”, realizado pelo Núcleo de Estudos Contemporâneos – NECON e pelo curso de Ciências Sociais da UFSM exibiu no dia primeiro de novembro às 14h30min o filme “A Saga de um Guerreiro”.
O local da exibição foi a sala de vídeo da Biblioteca Central da UFSM.

Mais uma vez fui para lá assistir ao filme e ouvir os comentários dos convidados. Já esperava que haveria poucas pessoas. Não me enganei. Quando cheguei à sala de vídeo lá estavam três pessoas: sendo uma o convidado para os comentários: professor João Vicente Lima; outra o Cristiano Hermano, monitor do projeto; e o único espectador até ali, um homem com feições indiáticas. Eles conversavam sobre futebol ( a conquista do São Paulo, os valores que a televisão paga para os clubes,...).
Esperamos mais alguns minutos, e como não chegou mais ninguém além de mim, iniciou-se a exibição do filme.
O filme conta as várias guerras enfrentadas pela tribo norte-america Shawnee, lideradas pelo valente Tecumseh, contra os brancos colonizadores americanos. Desde o final do século XVIII até 1813, os índios têm suas terras tomadas pelo exército liderado por William Henry Harrison (que mais tarde foi presidente dos EUA) e são obrigados a fugir para o oeste.

Passados alguns minutos da exibição, entraram na sala mais dois espectadores. Um tinha entre 40 e 50 anos e o outro entre 25 e 30. Trajavam roupas simples e já gastas. A aparência deles poderia ser considerada por muitos como “estranha”, “esquisita”. Ambos tinham cabelos compridos e atados (“rabo de cavalo”). O mais novo possuía pendurados em seu pescoço vários colares que eu julguei serem artesanato indígena. Tinham uma leve aparência de hippies. Depois de nos cumprimentar, sentaram, para também olharem o filme. Enquanto assistimos, o monitor Cristiano nos ofereceu café, aceito por todos.

Terminado o filme, o professor João Vicente Lima - embora nascido no Amazonas, apresentava um forte sotaque carioca - iniciou seus comentários.
Ele salientou que no século XVIII, as relações entre o branco e o índio nunca foram de uma boa convivência, “de perceber o outro”, mas de usurpação. Ele fez uma comparação com o fundamentalismo atual, citando como exemplos as políticas do presidente dos EUA e do Irã e algumas declarações do Papa.

O professor João também citou exemplos de uma convivência pacífica entre brancos e índios. Nas décadas de 60 e 70 do século XX, algumas universidades dos EUA e do Canadá tiveram alunos indígenas que trouxeram subsídios para a valorização do meio ambiente e com o conhecimento acadêmico adquirido, foram para suas tribos aplicá-los. No Brasil, este exemplo foi seguido pela Universidade do Mato Grosso.

Baseando-se nos Diários de Campo do antropólogo Roberto Cardoso de Oliveira, o professor afirmou que o contato entre brancos e índios é inevitável, não adianta isolá-los em áreas de preservação. Os índios já utilizam elementos da cultura dos brancos.
Porém, nós usufruímos muito pouco da cultura indígena. A nossa cultura é limitada para explicá-la. Por exemplo, não temos um grande conhecimento sobre a extraordinária engenharia dos povos pré-colombianos, sobre seu misticismo, sobre sua medicina.
O professor João lembrou sua passagem pelo Exército e destacou que durante os exercícios de sobrevivência na selva eram utilizadas técnicas indígenas.

Quando surgiu na conversa o tema da medicina indígena, aquele homem entre 40 e 50 anos, que chegou um pouco atrasado, deu um depoimento interessante:
Ele conheceu de perto a cultura indígena de países como México e Colômbia. Natural de Santana do Livramento, Orestes – esse era seu nome - viajou por toda a América Latina conhecendo os costumes dos índios. Casado, sua esposa estuda na Universidade Autônoma do México. Além disso, ele demonstrou um grande conhecimento sobre filmes de temática indígena.

Quando estava no Acre, aprendeu muito sobre a medicina indígena. Foi lá que descobriu o poder do chá Ayahuasca, feito de cipó Mariri e folha Chacrona. Utilizado pelos índios em cerimônias religiosas, este chá, quando ingerido, permitiria um contato entre os vivos e o mundo espiritual.
Atualmente, Orestes está morando no interior de Itaara em uma “comunidade alternativa”, conforme ele disse. Lá, também moram Fabiano – o rapaz dos colares indígenas – e outras pessoas. Neste local, eles organizaram um pequeno centro espiritual, onde é utilizado o chá Ayahuasca. Eles afirmam que seu uso é saudável para o corpo e para o espírito. Os ingredientes para o chá eles conseguem com tribos indígenas do Acre. No próximo dia 7 de novembro, quarta-feira, está previsto mais um encontro espiritual na comunidade. Todos nós fomos convidados.

É interessante notar que estes rituais, antes exclusivo dos indígenas, difundiu-se entre a população urbana. No Brasil, existem comunidades altamente organizadas que adotaram estas práticas religiosas indígenas. Vale a pena uma visita ao site de uma delas: a UDV – União do Vegetal:

http://www.udv.org.br/portugues/entrada.html

Outra comunidade é o Santo Daime, que reúne diversas seitas independentes. O uso do chá Ayahuasca causa grandes polêmicas. Os adeptos de seu uso enfrentam o preconceito de muitas pessoas, que vêem o chá como um perigoso alucinógeno. O artigo a seguir dá mais detalhes sobre o assunto:

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Programa de Índio II

O Núcleo de Estudos Contemporâneos – NECON e o curso de Ciências Sociais da UFSM, dando continuidade ao projeto “Antropologia e cinema – ciclo II – o índio no cinema”, apresentaram o filme “O Guarani”, produzido em 1996 e dirigido por Norma Bengell. O local da exibição foi a Sala de Vídeo da Biblioteca Central da UFSM às 14h30min. Onze pessoas prestigiaram o encontro. Entre elas, a cientista social Daiane Amaral dos Santos e o antropólogo Guilherme Sá, que após a exibição do filme, fizeram comentários.

A diretora Norma Bengell foi acusada de desviar verbas que seriam utilizadas na produção deste filme, liberadas através das Leis Rouanet e do Audiovisual. Mais informações em:
http://g1.globo.com/Noticias/Cinema/0,,MUL36751-7086,00.html


O filme é uma adaptação da obra “O Guarani”, escrita por José de Alencar em 1857. Mais detalhes sobre o filme podem ser vistos nos seguintes links:


http://www.falhanossa.com/OGuarani.htm
http://epipoca.uol.com.br/filmes_detalhes.php?idf=2822

A cientista social Daiane Amaral dos Santos disse que o filme apresenta idéias romanceadas. O índio que fica ao lado do português é considerado como “o bom selvagem”, exemplificado pelo índio Peri. A tribo indígena dos Aimorés é representada como sendo do lado do mal, como vingativos.

Outro tema apontado por Daiane é que hoje alguns líderes indígenas incorporaram um discurso formulado por não-índios de protetores da natureza para obterem benefícios. Ela também destaca a relação de superioridade do branco com o índio.

Já o antropólogo Guilherme Sá considerou o filme ruim porque apresenta muitas imprecisões etnográficas e de figurino. Para ele, o filme é melodramático e nada tem de realidade. O índio é apresentado “de alma branca”, que abdica de suas tradições. Para Guilherme isso na realidade não ocorre. Os indígenas absorveram a cultura do branco, mas de uma forma que houve uma mescla com a sua própria cultura. Ocorreu o surgimento de uma cultura híbrida. O antropólogo disse que as identidades são volúveis. Ele citou o exemplo do ensino da língua portuguesa aos indígenas: o índio a interpreta da sua forma, conforme o seu contexto. Todos os povos têm diferenças quanto à percepção de significados. Cada povo tem a sua forma de construção desses códigos.

Guilherme Sá critica as políticas dos governantes para os indígenas. Nos séculos passados, o índio era considerado um entrave ao progresso. Ele deveria ser dizimado ou então aculturado. Atualmente, essa política tem um caráter tutelar. Ele cita o exemplo de projetos dos militares nas décadas de 1960 e 1970, em que os índios eram cooptados pelo Exército para serem os defensores da fronteira nacional. . O ideal seria um relacionamento como se fosse de uma nação (brasileira) para outra (indígena).

Na área do conhecimento, o antropólogo Guilherme Sá disse que “todas as ciências são eurocêntricas”. Pouco sabemos sobre o pensamento indígena. O que temos é sempre “uma leitura ocidental da cultura indígena”. Para ele é preciso pluralizar, universalizar esse conhecimento e não apenas tolerá-lo. Uma das medidas iniciais para isso é o ingresso de indígenas nas universidades. Logo, ele é favorável à política de cotas para ingresso na universidade.

sábado, 13 de outubro de 2007

A Cidade do Pecado de Frank Miller

Hoje pude conferir o filme exibido pelo Cineclube UNIFRA, Sin City – Cidade do Pecado, de Robert Rodriguez e Frank Miller, que faz parte do Ciclo HQ do Centro Universitário. Trata-se de um filme baseado em uma HQ que foi inspirada nos filmes noir, nascidos do romance policial. Daí me sobrou uma bomba: falar sobre um filme baseado em uma história em quadrinhos que eu nunca li. Gosto muito de HQs (graças à minha irmã e suas revistinhas espalhadas pelo quarto quando éramos crianças) e tenho lá meus autores e personagens preferidos, mas confesso que os quadrinhos do Sin City nunca me interessaram muito. Nem o filme tinha me chamado muito a atenção, tanto que assisti hoje pela primeira vez. Tenho um certo receio com adaptações de quadrinhos para o cinema, gostei de poucas coisas, como X-Men e Homem-Aranha – embora tenha encontrado pelo caminho o filme Homem-Aranha 3, que estragou tudo! –, mas voltemos ao assunto do Sin City... Perdoem, então – era isso que eu queria justificar – a minha leiga opinião e falta de domínio do assunto. Mas vamos lá.

O norte-americano Frank Miller, co-diretor, roteirista e autor dos quadrinhos, criou a série em 1991 e já escreveu cerca de dez livros sobre a Cidade do Pecado (depois de Sin City, o cara também teve outra adaptação aclamada no cinema: O filme "300", de Zack Snyder, foi baseado na sua graphic novel “Os 300 de Esparta”). A história de Sin City é, no mínimo, angustiante. Assassinato, prostituição, pedofilia, traição, mutilação, assuntos corriqueiros da vida dos habitantes de Basin City (o verdadeiro nome da cidade), um lugar onde as noites e as chuvas parecem ser eternas. O filme, lançado em 2005, está estruturado a partir de quatro episódios, com histórias que acontecem na mesma noite e se encontram em um bordel na sequência final. O primeiro episódio é "O cliente sempre tem razão" (The Customer Is Always Right), um conto que serviu de teste para a adaptação do trabalho de Miller para o cinema. Em uma seqüência de poucos minutos, Josh Harnett e Marley Shelton interpretam respectivamente o assassino e sua cliente. Ponto para os efeitos, já que é impossível não ficar impressionado com essa apresentação inicial do que vai ser o filme: um universo sombrio e sensual, com o fundo daquela chuva rabiscada como as que vemos nos quadrinhos.

Em seguida, acompanhamos o episódio "O Assassino Amarelo" (That Yellow Bastard), o mais bem construído, mais pesado emocionalmente e mais interessante como um todo. Nele, John Hartigan (Bruce Willis), um policial prestes a se aposentar, vai atrás de um pedófilo assassino e, pra concluir seu último caso, precisa passar por cima do poderoso Senador Roarke (Powers Boothe). Esse episódio, apesar de ser o segundo apresentado no filme, é o último a mostrar seu desfecho, logo após a cena do tal bordel mencionado anteriormente, onde dança a linda linda linda Jessica Alba.


Durante essa quebra de episódio, vemos "A Cidade Do Pecado" (Sin City - The Hard Goodbye), onde Marv (Mickey Rourke) é um desfigurado troglodita com sérios problemas psicológicos em liberdade condicional (só alegria!) que se apaixona por Goldie (Jaime King), a única mulher que o quis e amanhece morta ao seu lado. Buscando vingar a morte da amada, Marv esbarra em Kevin (Elijah Wood), um silencioso assassino com altas tendências canibais, e no cardeal Roarke (Rutger Hauer). Juntos – e ainda com uma pequena ponta de Frank Miller interpretando um padre – esses personagens protagonizam o episódio mais bizarro, sanguinário e trash do filme.


O último episódio é "A Grande Matança" (The Big Fat Kill), onde o protagonista é Dwight (Clive Owen), um cara que acaba se metendo na morte do policial Jackie Boy (Benício del Toro), junto com Gail (Rosario Dawson) e as outras “damas da noite” de Old Town, uma região de Sin City. É o episódio mais sem expressão de todos – combinando com a atuação do ator principal. Aliás, Brittany Murphy, que interpreta a garçonete Shelley, o parzinho do moço no começo do episódio, é tão sem expressão quanto ele – combinam, os dois. A seqüência se arrasta demais e torna o filme até cansativo, em alguns momentos. A melhor (e ótima) cena é a única do filme dirigida por Quentin Tarantino, o “Diretor Especial Convidado” por Miller, em que Dwight e Jackie Boy discutem no carro – e palmas para Benício del Toro pela atuação.


E essa mãozinha do diretor não é a única ligação do filme com Pulp Fiction. Sin City tem tudo das novelas policiais americanas, e lembra o clássico de Tarantino pela narrativa entrelaçada que se desenvolve durante um dia e pela violência caricata dos personagens.
A atmosfera do filme se caracteriza pela obscuridade, pela tensão, pelo clima de vídeo-game, com seus quase-heróis que só morrem quando querem, veículos em alta velocidade, perseguições, mulheres seminuas, lindas e fatais, cigarros e mais cigarros, tudo isso narrado pelo personagen principal de cada episódio, bem como naquele quadradinho no alto da página da HQ. Fiel aos quadrinhos também é a representação de um mundo em preto-e-branco, com fortes contrastes de detalhes em cores vivas em algumas cenas. Detalhes que ficam incríveis na fotografia cinzenta do filme.


Inclusive, quanto à fidelidade ao original e a qualidade técnica de Sin city, não há o que ser questionado. O filme foi inteiramente processado por computador e gravado com câmeras digitais de alta definição. Os únicos elementos reais dentro do estúdio eram os atores, as armas e os carros. Só. Acho meio estranha essa forma de fazer cinema – atores contracenando com nada dentro de uma salinha verde (confira algumas fotos do "behind the scenes" do filme no site oficial). Mas não dá pra negar a qualidade do resultado: a riqueza de detalhes e o nível dos efeitos especiais são de deixar qualquer um (conhecedor ou não de histórias em quadrinhos) de boca aberta.

Sin City não é uma adaptação dos quadrinhos para o cinema: o filme é o próprio quadrinho em movimento, é como se a tela tivesse se adaptado para receber o HQ – coisa que nunca tinha sido vista antes. Não que isso seja ruim – o filme é um espetáculo visual para qualquer fã dos quadrinhos – mas também não é de todo bom. Acredito que o filme Sin City peque, em certos momentos, por excesso de fidelidade, por mais inusitado que isso possa parecer. Os quadros não são similares nem inspirados, são passados literalmente para o cinema (quem quiser conferir do que eu estou falando, é só dar uma olhada no site da Film Rotation, onde está disponível uma ótima seleção de cenas comparadas com as imagens dos quadrinhos – para ver mais, basta clicar nos nomes dos episódios). Fidelidade demais aos quadrinhos acaba levando ao risco de transformar o filme em uma mera cópia movimentada. E aí, entra um outro ponto: a velocidade desse movimento, buscando um ritmo mais forte, acabou ficando acelerada demais. Momentos que os quadrinhos permitem ao leitor se deter alguns segundos para uma melhor observação antes de virar a página, acabam sendo, no cinema, alucinantes demais – e perdem a ênfase em detalhes tão bem recriados pela simples dificuldade de acompanhar.

De qualquer jeito, Sin City é considerado um marco na forma de retratar os quadrinhos na telona – e faz jus a essa classificação. Ainda que eu tema que os filmes sejam feitos, daqui a alguns anos, todos dentro das salinhas verdes, posso dizer que eu não esperava um tão bem feito. Vale a pena ver.


Quem ainda não assistiu e quer ter uma idéia do filme, separei o Troféu Cena Trash: Marv x Kevin, um lobo e bastante sangue.
http://www.youtube.com/watch?v=RwwzVTZw6Zw

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Programa de Índio

Assistir a um bom filme e depois comentá-lo parece ser um bom programa. Essa é a proposta do Núcleo de Estudos Contemporâneos – NECON e do curso de Ciências Sociais da UFSM com a realização do projeto “Antropologia e Cinema – Ciclo II – O índio no cinema”.

No dia 4 de outubro às 14h30min na Sala de Vídeo da Biblioteca Central da UFSM foi a vez da apresentação do filme brasileiro “Caramuru – A Invenção do Brasil”. O reduzido público – 5 pessoas – assistiu à história do português Diogo Álvares Correia, que em 1500, degredado do seu país, acusado de roubo, acaba chegando ao litoral brasileiro, onde conhece as irmãs índias Paraguaçu e Moema. Esta comédia lançada em 2001 pela Globo Filmes e dirigida por Guel Arraes foi uma adaptação para o cinema da minissérie “A Invenção do Brasil”, exibida pela Rede Globo em 2000, quando da polêmica comemoração dos 500 anos da chegada da expedição de Cabral ao Brasil.

Após a exibição do filme, três convidadas iniciaram seus comentários:

A integrante do Mestrado em Integração Latino-Americana da UFSM, Pâmela Marques, leu um artigo escrito por ela sobre o filme, em que destacava entre outras coisas que o filme servia para repensar a criação do Brasil, fato que começou a ser discutido mais amplamente a partir da Semana de Arte Moderna em 1922. Ela apontou a obra “Macunaíma” de Mário de Andrade como sendo uma destas tentativas de pensar sobre a identidade do Brasil.

A mestranda Pâmela observou que no filme é apresentado o “mito de origem” do país com uma visão positiva, sem conflitos, harmoniosa da relação portugueses-índios. Seria a visão do europeu, considerado civilizado e racional, que vê os habitantes da África e da América como povos movidos pelo instinto ou pelas emoções. Pâmela aponta como uma “transgressão” do filme, o fato dele apresentar um tema histórico de uma maneira cômica e não de um modo “sério”, dramático, como geralmente é feito.

A professora de Antropologia da UFSM, Zulmira Borges, também destacou este caráter de comédia do filme, este aspecto “debochado e de grande brincadeira”. Ela salientou a evidência da retratação de estereótipos nacionais: como o comportamento sexual das índias, a imagem de harmonia, festividade, alegria e o “jeitinho brasileiro”, definidos pela professora como “interpretações generalizantes” – temática bastante abordada na obra do antropólogo Roberto da Matta. Conforme a professora Zulmira, o filme passa a idéia de uma tranqüilidade nas relações de convivência entre portugueses e índios, em que os personagens transitam por uma cultura e outra sem dificuldades.

A professora de Letras da UFSM, Andréa Weber, fez uma comparação entre o filme e o livro “Caramuru”, escrito em 1781 pelo frei José de Santa Rita Durão. O livro, enquadrado no gênero épico, enaltece o heroísmo dos portugueses, justifica atrocidades e massacres contra os índios, que devem ser integrados à civilização branca. É apresentada sempre a visão do colonizador.
As três convidadas concordam que os índios são menos representados no cinema do que os negros, talvez por serem hoje uma população reduzida e viverem “escondidos” na floresta. Embora nas vezes em que são representados, normalmente ambos são retratados do ponto de vista do branco.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Who needs reasons when you've got heroin?


É com esse pensamento (“Quem precisa de razões quando se tem heroína?”) que começa o filme Trainspotting: Sem Limites (1996), de Danny Boyle, exibido ontem no AudiMax do Centro de Educação (CE), no campus da UFSM. Esse clássico da cultura junkie, considerado um retrato da geração sem esperanças dos anos 90, é o resultado da adaptação de John Hodge para o livro Trainspotting, do romancista escocês Irvine Welsh, lançado em 1993.

O filme, excelente e original, que recebeu indicação ao Oscar de melhor roteiro adaptado, se passa em um subúrbio de Edimburgo, na Escócia, onde jovens ansiosos e sem grandes perspectivas de suas vidas medíocres, se afundam no submundo para sustentar o vício em heroína. No caminho das trapaças, das drogas e da própria falta de caminho, encontramos o personagem principal, Mark Renton (em uma das melhores atuações de Ewan McGregor até hoje), acompanhado de sua tentativa de abandonar o vício; o demente Sick Boy (Johnny Lee Miller); e o esquisitíssimo Spud (Ewen Bremmer). No grupo dos “não-viciados”, temos Begbie (Robert Carlyle), cujo único vício é a violência gratuita – e as suas histórias sobre isso; e o "atleta" Tommy (Kevin McKidd), que nunca usou drogas, mas não demora até ser vencido pela curiosidade e necessidade de fuga da existência para algum lugar. Sem esquecer, é claro, do próprio Irvine Welsh, que faz uma pontinha no filme, interpretando Mikey Forrester (aqueeeele que vende um supositório de ópio para Renton no comecinho do filme). Trainspotting adota um ritmo alucinante para descrever a rotina desses jovens que vagam entre o desequilíbrio, o êxtase e o completo desespero, sem deixar de ter ainda uma linha de humor interessante, encabeçada pelo desajeitado Spud, que é o protagonista das cenas mais engraçadas do filme (a cena da entrevista de emprego do menino é ótima!).

A trilha sonora conta com grandes pérolas do pop rock nos anos 90, como Blur, New Order, Iggy Pop, Elastica, Primal Scream e Lou Reed, e encontra encaixes perfeitos na associação da imagem com a música ao longo do filme. Destaque para dois momentos: o primeiro é a cena inicial, uma correria muito bem embalada por “Lust for Life”, do Iggy Pop, e por um disparate de frases que culminam num quase ode à auto-destruição, tão dramático quanto divertido, na voz de Mark Renton. O segundo é uma das cenas mais surreais do filme, protagonizada por Renton, na seqüência do efeito da droga (em que ele é quase "engolido" por um tapete vermelho) e do trajeto feito no táxi que cospe o jovem na frente do hospital, casando perfeitamente com a música “Perfect Day”, do Lou Reed. A seqüência é impressionante, a edição é sensacional, e a escolha da música fecha com as cenas em que o moço está desacordado até o momento de catarse, quando ele acorda de súbito numa maca no hospital.

Não dá pra deixar de comentar também o momento do “THE WORST TOILET IN SCOTLAND”, o “pior banheiro da Escócia”, em que Renton chafurda em uma privada imunda atrás do seu supositório de heroína (aqueeeele supositório!) que “caiu” ali. A cena é trash, nojenta, um retrato degradante do ser humano, mas é fantástica. Aliás, apesar de tantas cenas mais explícitas de violência, drogas e imundície, ainda considero a cena do bebê levemente arroxeado passeando pelo teto do quarto de Renton a cena mais forte do filme. Foi com certeza o que mais me impressionou quando vi Trainspotting pela primeira vez, lá com meus 13 ou 14 anos. Marcada por uma interpretação angustiante de Ewan McGregor, a cena carrega um pouco de morbidez naquele jovem desesperado pela síndrome de abstinência, que se tranca no quarto e se vê perseguido pelo espectro de um bebê.


Trainspotting não aposta em personagens super legais, nem assim, tão esforçados para livrarem-se do vício, muito menos que dêem lá muito valor para a amizade. Nesse ponto, Danny Boyle consegue ser magistral, ao mostrar com clareza e sem julgamentos morais, o egoísmo dos personagens, a contrafação e a inconseqüência nos atos de cada um, os pontos altos e baixos da dependência química. Em meio à polêmicas e acusações de apologia às drogas e à auto-destruição, Trainspotting se consagrou como um filme original e cru, sem glorificar o vício e sem adotar posições caretas, apenas mostrando de forma explícita o prazer e a dor que a droga proporciona, das viagens à morte. Um grande filme, de uma história captada com muita sensibilidade por Boyle, e encarada com dinamismo, clareza e uma boa dose de coragem.

Se todos esses argumentos não foram suficientes pra convencer quem ainda não viu o filme de que ele realmente vale a pena, eu apelo: Ewan McGregor, dono de uma cadeira cativa no meu Top 5 Melhores Sotaques do Mundo, é o narrador. Preciso dizer mais? =P

Um PS: Vale lembrar que, em 2005, foi lançada no Brasil a continuação de Irvine Welsh para Trainspotting: o livro Pornô, em que o escritor retoma os personagens em uma história que se passa 10 anos depois, mudando o foco principal da heroína para a pornografia (sem tirar de cena a droga, a violência e as maluquices dos não mais garotos da trama). A seqüência até se aproveita de algumas idéias que saíram da adaptação de Trainspotting para o cinema e não constam no livro.

O Trainspotting pode ser encomendado pela Cesma e o preço fica na base de R$35,00.

Quem estiver a fim de conferir o Pornô também, vai ter que dar uma procurada (e desembolsar uma graninha a mais), já que a Cesma, pelo menos por enquanto, não trabalha com esse livro.

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